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Segunda - 11 de Dezembro de 2017
As aventuras produtivas de Rui
Entrevista
Escrito por Rodrigo Guadagnim   
Sex, 16 de Dezembro de 2011 11:54
IMPROVÁVEL
 
Rio-pedrense decidiu ser biólogo depois de três dias perdido na Floresta Amazônica; passados 15 anos, é pós-doutor na disciplina 
 
 
 
Nome: Edmilson Rui

Idade: 40 anos

Currículo: 
Biólogo (Unicamp - 2000).
Doutorado em Bioquímica Estrutural (Lab. Nac. de Luz Sincrotron - 2005).
Pós-Doutor (Instituto de Ciências Biomédicas, USP-SP – 2006. Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais, FIOCRUZ – 2007 e Centro de Investigação Internacional em Saúde, Barcelona – 2008-2011). 

Vínculo com RDP: Filho da terra.


Como foi sua formação acadêmica e profissional?
 
Decidi que queria fazer biologia quando eu e o Tatu (Arlindo César Bonassa) estávamos perdidos na selva amazônica peruana. Fazia três dias que nós estávamos caminhando naquele pedaço de chão, em uma situação bem crítica e não tínhamos a certeza que sairíamos vivos daquele lugar. O Tatu fez uma promessa: “Se sair daqui com vida, eu viro monge”. Então falei: “Tatu, se eu sair daqui com vida, vou fazer biologia porque quero saber pelo menos o que pode comer neste mato aqui”. E aquilo ficou latente na cabeça.

O que vocês estavam fazendo naquele lugar? 

Eu, Tico (José Luiz Martim) e Tatu Bonassa fomos de carona para Machu Picchu em 1993. Pegamos carona em um caminhão boiadeiro até Presidente Prudente - SP. Depois, pegamos um ônibus até Corumbá para pegar o trem da morte, que faz a rota entre as cidades bolivianas de Puerto Quijarro, na fronteira com o Brasil, e Santa Cruz de la Sierra. Assim fomos por terra. Acho que foram uns 15 dias de viagem até chegar a Machu Picchu. 

O que vocês estavam fazendo quando se perderam na floresta?

Chegamos em Cuzco, que é a ultima cidade antes do Machu Picchu, o Tico teve que voltar rapidamente para o Brasil de avião. Eu e o Tatu vimos o mapa e observamos que o Acre estava bem lá do lado, então se nós pegássemos um avião comercial até uma cidade chamada Puerto Maldonado, na Amazônia Peruana e de lá para o Brasil, dava uns 220 km por terra. Desta forma chegamos até Puerto Maldonado. A próxima cidade do caminho, Ibéria, ficava a 170 km. Conseguimos carona no avião do exército peruano de Puerto Maldonado até Ibéria. Consultamos o mapa: estávamos a apenas 55 km do Brasil. Para quem já foi caminhando para Pirapora, a gente imaginou o que faria com facilidade. Fomos até um barzinho, compramos duas garrafinhas de 500 ml de água, colocamos na mochila e às 15hs saímos do vilarejo e fomos andando. Uma coisa é fazer 55 km no asfalto ou estrada batida. Agora fazer 55 km no meio da floresta, longe de tudo e perto de nada, chovendo, com barro até a canela, em trilha é muito diferente. Então os 55 km que nós pensávamos que íamos fazer em um dia, demoraram três para fazer. Na trilha nós não tínhamos nada para comer. Não passava ninguém, não tinha uma alma viva por lá.

Três dias sem comer nada?

Nós roubamos comida de umas galinhas: mamão podre, resto de comida. Eu estava louco para comer as galinhas, tinha acabado de sair do exército. Eu falei para o Tatu: “Cara, vou comer essas galinhas”, mas daí o Tatu disse: “Não, se você matar essas galinhas é capaz do dono sair com uma arma e matar a gente”, assim acabamos comendo a comida delas mesmo. A água nós bebíamos a da chuva que caía na terra, aquela água de poça barrenta e íamos caminhando. No finalzinho do terceiro dia de caminhada, apareceu uma caminhonete que estava transportando um monte de gente que trabalhava na construção dessa rodovia. Eles deram carona para nós até Iñapari, na divisa com o Brasil.
E depois que começou a faculdade, voltou para a Amazônia para uma nova aventura. Como foi? 


Entrei em Biologia na Unimep onde cursei dois anos. Nessa época eu assisti uma palestra do Diretor da OPAN (Operação Amazônia Nativa), uma ONG que existe em Cuiabá – MT que trabalhava com problemática indígena na Amazônia. A OPAN estava recrutando biólogos para trabalhar com os índios. Me encantei com este projeto. Tranquei a faculdade e fui direto para Cuiabá em 1996. O contrato era para viver três anos na floresta com os índios, então fiquei preocupado porque eu queria terminar a faculdade de Biologia primeiro. Assim eu fiz um ano de Biologia em Cuiabá. Acabei conhecendo toda a Chapada assim. Em setembro daquele ano minha namorada (atual esposa) foi visitar-me, e, envoltos pela atmosfera mágica da Chapada dos Guimarães ela retornou para São Paulo com o nosso primeiro filho. 

Foi aí que entrou na Unicamp?

Isso. Era final de 1996. Para não largar os anos de faculdade, prestei a prova de transferência externa e comecei a fazer Biologia na Unicamp. Porém, os três anos que eu havia feito de Biologia acabei perdendo e tive que começar tudo do zero. Na Unicamp, escolhi a modalidade de Biologia Molecular que é focada para pesquisa. Foram sete anos de graduação. 

Atualmente você é doutor?

Pós-doutor. Terminei a graduação e fiquei naquele impasse sobre o que fazer. Bioquímica é uma coisa que eu sempre gostei muito e surgiu uma oportunidade para fazer um doutorado direto, sem mestrado. Fui fazer o doutorado em uma área que chamada Biologia Molecular e Estrutural. Meu doutorado foi para descobrir por que uma proteína específica do vírus da hepatite B está relacionada com câncer no fígado. 

Concluiu o doutorado e foi direto para a Espanha?

Não. Terminei o doutorado e fiquei muito em dúvida sobre os próximos caminhos a seguir. Uma palestra em fez ter a vontade de investigar a malária por dois principais motivos: primeiro por ser um problema nacional, da América do Sul, da África e dos países em desenvolvimento; segundo, porque meu pai quase morreu de malária quando ele trabalhava com caminhão em Porto Velho na década de 1970. Descobri um cientista da USP chamado Dr. Hernando del Portillo que se dedicava a descobrir uma vacina para essa doença. Me apresentei, conversamos e surgiu o convite de fazer um pós-doutorado com ele no ICB-USP (Inst. de Ciências Biomédicas da USP). 

Aí então foi pra Espanha?

Não ainda. Nesse meio tempo, eu já conhecia algumas pessoas e em Porto Velho - RO, que precisavam de um profissional com o meu perfil, que soubesse Biologia Molecular e Estrutural, que soubesse escrever e gerenciar projetos, captar recursos junto aos Ministérios de Ciência, Saúde e Educação, etc. Com isso, mudamos com a família toda para Porto Velho e fiquei por lá durante um ano. Quando estava lá que recebi o convite do Dr. Hernando Del Portillo para compor uma equipe internacional em Barcelona para terminar o projeto iniciado em São Paulo.

Por que resolveu voltar?

Concluí minha parte do projeto em 3 anos, apesar dos convites não tivemos o interesse de permanecer lá por mais tempo porque as crianças já estavam perdendo o português. Barcelona é uma cidade bilíngue: onde se fala espanhol e catalão. As crianças ficavam o período integral dentro das escolas e a gente percebeu que já perguntavam para nós o significado de palavras corriqueiras. Isso e mais algumas outras coisas nos levaram a concluir que nós não queríamos fazer um projeto de vida lá. Somos brasileiros e se tivermos que lutar por algum país, vamos lutar pelo Brasil, ajudar a desenvolver o nosso país.


São 15 anos de uma aventura produtiva. Agora você resolveu voltar para o Brasil e mais especificamente para Rio das Pedras. O que o levou a tomar essa decisão?


Tem uma frase do Amyr Klink que é mais ou menos assim: “Um homem precisa viajar. Precisa conhecer o frio para desfrutar o calor. Sentir a distância para poder voltar. Sentir o tempo para conhecer a saudade.” Antes eu maldizia Rio das Pedras, falava que aqui não tinha nada para fazer e tal. Depois de partir um bom tempo e ver que a família, os amigos, a tradição, a cultura, são o que fica dentro de você. Pessoas perguntam, “por que você voltou para Rio das Pedras? Para o Brasil?”, eu pergunto: você já esteve fora do Brasil? Sabe o que é sentir saudade da sua terra, da sua gente, da sua comida, da sua música? 

Como é que você pretende se enraizar em Rio das Pedras e que frutos você espera colher aqui? Qual é o seu projeto para a cidade?

Eu vou trabalhar com a minha família. Temos uma empresa com mais de 30 anos de tradição. Durante estes 15 anos pude conhecer as diversas realidades do Brasil e um pouco da Europa. Trabalhei com ONGs, dentro das Universidades e de institutos científicos de alta tecnologia. Vi como funciona os projetos, a captação de recursos para fins sócio-cientificos e a transferências de tecnologia das universidades para a sociedade. Qual é o meu projeto para a cidade? Tenho varias Idéias de projetos, mas por agora vamos plantar...acabei de chegar.

 
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