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Segunda - 11 de Dezembro de 2017
“Meu melhor presente seria ver ele longe do crack”
Especial
Escrito por André Rossi   
Sex, 11 de Maio de 2012 14:14
DIA DAS MÃES

Em matéria especial do Dia das Mães, conheça a história de uma mulher que luta para manter o filho de apenas 15 anos longe das drogas.
 
 
 
Pesquisa do psiquiatra Pablo Roig apresentada em maio de 2010 durante o lançamento da Frente Parlamentar Mista de Combate ao Crack, revela que o número de usuários de crack no Brasil estava em torno de 1,2 milhão e a idade média para início do uso da droga é de 13 anos. Esse número é uma estimativa feita com base em dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

A frieza do número possivelmente não transmita o tamanho do sofrimento dos familiares desses usuários e nem os motivos que levam uma pessoa a usar a droga. A edição de O RIO-PEDRENSE deste Dia das Mães traz história de uma mãe, moradora de Rio das Pedras, que passou (e passa) uma série de dificuldades com o vício do filho. 

Ela simboliza o sofrimento que vêem seus filhos serem destruídos física, moral e mentalmente pelo crack, droga cuja dependência é considerada epidêmica pelo Ministério da Saúde. Uma doença que mata desmoralizando o indivíduo e a família, provocando prejuízo e repulsa à sociedade. 

HISTÓRIA 

Natural da cidade de Rio Claro, Maria (todos os nomes citados nessa matéria são ficcionais) veio para Rio das Pedras aos seis anos de idade com sua mãe, sua irmã e seu irmão para viver com o padrasto, que era morador da cidade. Maria cresceu, concluiu o ensino médio e trabalha na cidade. Quando tinha 18 anos, ela conheceu um homem chamado Antônio; eles começaram a morar juntos e tiveram dois filhos: Clara (16 anos) e João (15). 

Três anos depois do nascimento do segundo filho, Antônio foi preso por roubar uma motocicleta. “Nunca escondi isso do João. Desde que ele era novinho sabia que o pai estava na cadeia. Chegamos a ir visitá-lo lá. Depois que ele saiu da cadeia, nunca deu muita atenção para o filho. Isso sempre atormentou o João... ele sentia muito a ausência do pai”, conta Maria, que não voltou a se relacionar com Antônio depois dele sair da cadeia.

Em 2007, Maria se casou com José, com quem teve um outro filho, Marcos (4 anos). “A relação entre João e o padrasto sempre foi muito boa. Nunca tivemos nenhum tipo de problema com isso”, afirma Maria.

Os problemas com o filho João começaram quando ele tinha 13 anos, em 2010. “Como eu sempre trabalhei fora, meu filho ficava com a minha mãe. Só que o João sempre foi muito ‘rueiro’, nunca parou direito em casa. Quando eu o deixava com a minha mãe, ele saia pela rua, andando com outras crianças que não eram boas companhias”, relata Maria.

INÍCIO DA DEPENDÊNCIA

Nesse período, os primeiros sinais do uso de drogas começaram a aparecer. “Ele chegava em casa com os olhos vermelhos, agressivo, não queria falar com ninguém. Acredito que ele tenha começado usando maconha, depois cocaína e finalmente o crack, que foi quando a situação ficou mais complicada”, diz Maria. “Nós tentávamos conversar, mas ele não nos ouvia. Para tentar afastar ele dessa vida, nos mudamos da casa onde morávamos no bairro Nosso Teto para uma casa no Santo Antônio, mas os problemas continuaram. Trancávamos a casa para ele não sair, mas não tinha jeito: ele pulava o muro e fugia de nós”, conta Maria, que disse nunca ter tentado prendê-lo no quarto, por exemplo, por medo de ser agredida pelo próprio filho.

João passou quase três anos longe da escola. “Quando viemos para o Santo Antônio, não conseguíamos vaga para ele em outra escola. Eu não queria que ele voltasse para a escola do bairro Nosso Teto porque sabia que as crianças que ofereceram drogas para ele estavam lá. Desde então, ele nunca mais voltou para a escola”, conta Maria.

Problemas com a polícia aconteciam com frequência. “Os policiais vinham até minha casa, principalmente durante a madrugada, dizendo que meu filho tinha sido pego com drogas e que eu precisava ir até a delegacia para retirá-lo de lá. Tenho certeza de que vendedores de crack o usavam para distribuir a droga para outras pessoas e em troca lhe davam um pouco; ele não tinha dinheiro para comprar tanta droga”, relata Maria, que diz que a única coisa que João tirou de casa para vender e conseguir mais crack foi um tênis do padrasto.

Para Maria, a situação ficou insuportável quando, em uma manhã, ela abriu a porta da casa e deu de cara com João dormindo no jardim, todo sujo e coberto com tapetes do banheiro. “Aquela cena foi demais para eu aguentar. Não suportava mais vê-lo sendo consumido pelo crack. Conversar com ele não adiantava, então resolvi procurar a ajuda do CAPS (Centro de Apoio Psicológico). João passou pelo médico do Centro, que deu uma carta autorizando a internação dele na Casa de Apoio ao Drogado e Alcoólatra de Limeira (Casa Dia). Meu filho aceitou ser internado e por lá ficou durante seis meses”, lembra Maria.

Depois da internação, João voltou para casa bem melhor. Conversava com a família, era amoroso com a mãe e falava em voltar a estudar. Entretanto, um mês depois, ele teve uma recaída. Saiu de casa e voltou a usar crack. “Nesse período, ele começou a ficar fora de casa durante dias. Não sabia com quem ele estava, onde estava e como estava. Temia que um dia me ligassem dizendo que ele estava morto”, conta Maria. “Quando nós estávamos de mudança do Santo Antônio para voltar ao Nosso Teto, fazia cerca de três dias que ele não aparecia em casa. Só conseguimos localizá-lo graças ao meu irmão, que o viu no bairro Dona Rosina”, diz Maria.

O MELHOR PRESENTE

“Hoje (28 de abril, dia da entrevista), faz nove dias que ele não usa nenhum tipo de droga. Nove dias de luta. Ele não é um menino ruim, não mesmo, mas se envolveu com coisas horríveis. Houve dias em que eu só pensava que ele não voltaria para casa, que morreria em algum lugar escuro”, relata Maria, nitidamente emocionada.

Quando perguntamos o que ela gostaria de ganhar nesse Dia das Mães, Maria abaixa a cabeça por alguns segundos e afirma: “Eu só quero que meu filho continue bem como ele está agora, que continue esse ambiente de paz na minha família e que ele fique longe das drogas, longe das ruas. Não existe sensação pior no mundo do que ver o filho que a gente ama perdido nesse mundo horrível”.

“Se você tem um filho na mesma situação que o meu... lute! Não desista dele, não desista do seu filho! Vai ser difícil, você vai chorar muito e todo dia será uma batalha contra o vício, mas para Deus nada é impossível. Eu garanto que vai valer a pena”, palavras de Maria, uma mãe que ama seu filho e fará de tudo para mantê-lo longe das drogas, um problema universal que precisa ser combatido.

 
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